Sessão de 14/03/2007
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Desde a última vez, procuramos fazer uma apresentação quando da realização do Colóquio da Insistence e o fato de ser difícil de escrevê-lo como tal no site www.sonecrit.com (ele está integralmente nos “Áudios” deste site com os erros possíveis, já que falo, falo a vocês, ou seja, me dirijo a vocês sem anotações quando apresento um seminário ou uma conferência), me levou a escrever um texto, Esboço de um quadro histórico do cristianismo. Homenagem a Condorcet, que vocês encontrarão nos “Escritos” se forem ao mesmo site.
Ora, se me deixo levar a escrever, algo surge para mim, a importância do universal.
Evidentemente, é uma questão que permaneceu o mais das vezes em silêncio, ainda que Lacan tenha tentado abordá-la pela via do todo e do não-todo, cath-olós, em grego, que quer dizer “a partir do todo”, do universal. Observe-se que a palavra “católico” está na língua francesa principalmente a partir do fim do século XVI. Antes se falava do cristianismo.
Portanto, é tentando escrever alguma coisa com base no que disse na Sorbonne, lugar da universidade católica, que veio esta questão sobre o universal cujo título Esboço de um quadro histórico do cristianismo. Homenagem a Condorcet faz pensar no testamento de Condorcet, o Esboço de um quadro histórico sobre o progresso do espírito humano, que ele redige quando está só e que deve esconder para escapar da loucura sanguinária do Todo que é o terror
Falei muito sobre o quadro e sobre o esboço. Hoje, acrescentarei que ele realça o que trança, terceiro, que nodula arte, psicanálise, política porquanto o importante não é sobretudo fazê-los jogar dois a dois, porque se trata de partir do três.
O três, não o terceiro. O três é o que faz um e outro, os dois, fazerem três. Foi assim que Lacan definiu o real no nó borromeano: os dois, o simbólico e o imaginário, podem fazer três.
Imagino que tenha sido isso que me conduziu na escritura desta ficção, é claro, que é o encontro de Casanova e Mozart em setembro de 1787.
Sabemos que isso deve ter acontecido, não se pode afirmar com certeza, porque Histoire de ma vie [“História de minha vida”] chega bem antes, mas há anotações que podem permitir essa dedução, em que pese eu ter ficado pessoalmente muito aprisionado pelo Finale do Don Giovanni, imaginei que efetivamente Casanova foi e voltou − é certamente o caso − muitas vezes a Praga, que falou muitas vezes com Mozart, que assistiu à primeira apresentação oficial de Don Giovanni e que, Histoire de ma vie, cuja redação começa dois anos mais tarde sem que se saiba exatamente por quê, poderia ser um só-depois desse encontro, da mesma forma que a escritura desse encontro poderia ser, para o leitor que descobri ter-me tornado, um só-depois do encontro do universal no âmago do cat ólico na Sorbonne, antiga universidade católica.
Assim, esse só-depois muda porque não é mais as “Memórias”; além disso, isso não se chama “Memórias”, mas Histoire de ma vie.
É ainda mais importante o fato de que o manuscrito que escreveu Giacomo Casanova de 1789 a 1798 só ter sido encontrado em 1960. Em outros termos, depois de 1798, data de sua morte, 5 de junho de 1798, o manuscrito será transmitido, vendido, traduzido para o alemão, retraduzido para o francês por um professor de francês, Jean Lafforgues, mas só ulteriormente aparecerá o original, o que muda não apenas a distribuição das cartas no jogo, mas também a transmissão da “ex-sistência”[i] de uma colocação particular, na relação com a língua francesa, da qual já falei muito.
Eu poderia dizer agora que, para mim, as primeiras linhas desse manuscrito foram um acontecimento imprevisto: eu já as tinha lido, mas não notara que elas são como um quadro:
“Sou não apenas monoteísta, mas cristão, fortalecido pela filosofia que nunca deteriorou nada”.[ii]
Sem dificuldade, Casanova formula a questão da articulação daquilo que faz três, monoteísmo, cristianismo, filosofia. Trata-se de algo que − antes, ele explica em que a filosofia estóica que ele pensava tê-lo guiado até ali, notadamente seguindo a máxima que lhe disse um dia um senador veneziano, Malpiero, sequere deum, “seguir o Deus” − permite se supor que há um só-depois.
A partir daí, alguma coisa nos permite interrogar quanto à articulação entre os dois, o monoteísmo e o cristianismo, perguntando se podem fazer três ou se estão inexoravelmente rompidos.
Mas é uma lógica, a lógica dos quantificadores de que Lacan fala. Ou seja, não é possível se refugiar nas explicações quaisquer que sejam, é verdadeiramente uma experiência de discurso. Foi mais ou menos isso que me surgiu e encontrei aquele que é descrito como o doutrinador do cristianismo: Paulo de Tarso.
Ora, efetivamente há uma epístola de São Paulo escrita num momento de cólera, é a Epístola aos Gálatas. Ele a escreveu em 57, um ano antes da Epístola aos Romanos. Normalmente nos referimos à Epístola aos Romanos, que ele leva tempo para redigir e onde exprime calmamente sua posição, ou seja, que não há necessidade de circuncisão porque a fé em Jesus Cristo ressuscitado é suficiente para ser salvo.
Na Epístola aos Gálatas, há um momento em que − depois de ter explicado o que aconteceu, depois de ter explicado por que principalmente Tiago é o responsável pela comunidade de Jerusalém, enviou aos Gálatas os judeus circuncidados para controlar seu ensino, ele que não fazia parte dos doze apóstolos, portanto isso podia não ser legítimo − ele diz algo que já li, mas nunca notara desta forma:
“Não há judeus nem gregos, não há homens nem mulheres, não há escravos nem homens livres, pois todos somos um em Jesus Cristo.”[iii]
Bem, é claro que a compreensão no discurso habitual, o que se pode chamar de discurso proposicional, leva a pensar que Jesus Cristo redimiu pela sua morte e ressurreição o pecado original e que a partir desse momento não há mais diferenças, todos podem ser redimidos se crêem em Jesus Cristo, o Salvador.
Todos somos um é o que a Igreja, nos séculos seguintes, por meio da instauração de dogmas que encerravam os Concílios que tiveram lugar no século IV − Henri Fontana vai dizer uma palavra sobre isso porque ele trabalha essa questão − vai conservar.
E Todos somos um leva à conversão, leva ao modo pelo qual a Igreja será definida proclamado no Credo: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”, “Credo ... in unam, sanctam, catolicam et apostolicam eclesiam”.
Sem dúvida, com base em Paulo, surge na Igreja católica como tal a dimensão do Um que é santificado, a importância apostólica, ou seja, o fato de ir converter a missão dos apóstolos. Uma questão se formula: saber se é bem isso que Paulo transmite, que ele tenha pensado nisso ou não. Pois essas três possibilidades não são absolutamente impossíveis já que é evidente que haverá sempre judeus, gregos, homens, mulheres; portanto, não se trata de uma impossibilidade no sentido de que podemos pensá-la, é uma outra coisa.
Essas impossibilidades que são em número de três, “Não há mais”, que são, ainda por cima, formuladas na forma negativa e que se resolvem em uma afirmação, nos interrogam e nos aproximamos delas como de uma lógica, creio que aí existe algo de surpreendente e que se deva se deixar trabalhar por essa lógica.
Esse apóstolo é de alguma maneira um grito do coração. Paulo está zangado e deixa escapar algo. É alguma coisa que de fato faz uma mossa em relação a todo o resto, porque antes, antes de dizer isso, ele se apresenta, diz o que fez, diz em nome de quem ele fala ... e, subitamente, essa mossa pode-se tornar um olhar que detém nosso pensamento.
É uma mancha da mesma ordem que pode nos deter quando Casanova escreve: “Sou não apenas monoteísta, mas cristão, fortalecido pela filosofia que nunca deteriorou nada.”
O que quero dizer é que há algo nessa afirmação; de saída, algo que é importante e que normalmente não é guardado para si. Suponho que há uma rev olution[iv] que ultrapassa a revolução, há alguma coisa − é isso que tento lhes transmitir − que toca na dialética que nodula o todo e o Um.
Por meio desse mais-além evidentemente do sentido, efetivamente se formula a questão de Lacan no Seminário Encore, [Mais Ainda] e depois no Les non-dupes [“Os não-bobos”]
Se retomarmos os seminários de dezembro, janeiro, fevereiro, 1974, ele aí retorna para explicitar o que definiu como sendo o não-toda na mulher. Há uma frase bastante extraordinária − eu a ouvi porque tenho os Cds − no seminário de 15 de janeiro de 1974. Ele diz isso, é a primeira vez que eu escuto isso dessa forma, vou-lhes dizer, ele explica toda a espécie de coisas, explica o todo, a questão do todo, é o que o homem fabrica quando fala, quer dizer que ... mas, atenção, o homem em sua elaboração é a parte masculina do ser falante. A parte masculina do ser falante quando ela fala normalmente produz um discurso que se escreve como círculo de barbante, ou seja, isso gira em torno.
E ele propõe que Aristóteles não ousou avançar, mas que ele teria podido, todo homem não é mulher. Não é a mesma coisa dizer o homem não é a mulher que dizer todo homem não é mulher porque é imaginar alguma coisa da ordem de uma exceção.
Na dimensão do universal. Do Todo e do Um, é preciso distinguir o universal do saber masculino e o que é do feminino. E me vem à mente esta citação de Lacan em Televisão: “Todas as mulheres são loucas, como se diz. É justamente por isso que elas não são todas, isto é, não-loucas-de-todo, antes conciliadoras ...”[v]
Eis a resposta de Lacan a partir da experiência do discurso. Então tento avançar um pouco com vocês em relação a isso, porque estamos completamente imersos na experiência de discurso que faz, a partir do momento que alguém fala, com que ele esteja do lado Todo homem no sentido de que isso gira em torno.
Ora, o que podemos supor com Lacan é que de repente “uma mulher, isso pode de produzir quando há nó, ou melhor, trança.”
Aqui está, Todo está lá trançado ao Um.
A experiência da transferência é isso. O alcance do objeto (a) é isso, nó, trançado. “Não é isso”, adestrado.
A leitura de Casanova me levou nessa direção. Mas não posso dizer de que maneira.
Portanto, ressaltando o que avançamos no início do ano, quando Freud encontra Lucy R. quando ele lhe diz: “Mas se você sabia disso por que não me disse?” E nos aproximamos do sonho do Homem dos ratos na interpretação de Lacan quando diz que o sonho significa, é claro, que ele não se casa com ela pelos seus belos olhos, mas pelo seu dinheiro, mas que de fato, o negro no lugar dos olhos, as fezes, é o olhar, é a morte que olha para ele com seus olhos de betume e que é isso, é a continuidade simbólica que deve ser dada pelo analista na transferência.
Isso nos leva ao título do seminário, o saber, O saber, não é o saber qualquer coisa, não há objeto direto, tampouco há sujeito, é o substantivo de um infinitivo, é o saber absoluto.
Quando se diz o saber, não se imagina de jeito nenhum que se toca em algo que é infinitivo, porquanto não há sujeito, não há objeto e que isso toca no saber absoluto, que é absolutum [ab, ‘movimento na direção do exterior’ + solutum, solvere, ‘dissolver’], quer dizer que se trata, de fato, de dissolver bem qualquer coisa, de se descartar do sujeito que sabe alguma coisa. O saber absoluto funciona completamente sozinho, além de qualquer pensamento que é pensado sobre o todo.
Portanto, uma questão se coloca: será que apesar de tudo que se possa dizer sobre o enunciado de Paulo, não haverá algo na estrutura que seja desta ordem, a do saber absoluto?
O que é certo é que a Igreja vai interpretá-lo de uma forma, falei sobre ela há pouco, ela interpreta, eu diria, na forma do todo, forma que lhe convém pois que ela se estabeleceu. Ela congela, faz política, se organiza, toma o poder no fim do século IV a ponto de banir os que não são cristãos.
Sem mudanças, há o mesmo centro em torno do qual isso gira, mas é ela que o ocupa e o define. Tudo girará e continuará a girar em torno, universalmente. É a verdade, a verdade da fantasia.
Palavras-chave:
Igreja Santa, Católica, Universal, articulação do Todo e do Um, Todo homem, o Um, Uma mulher, Triplicidade, Trança, Discurso, Saber absoluto, Infinitivo.
Tradução: Leila Longo
NOTAS DA TRADUÇÃO BRASILEIRA
[i] No original: ex-sistence. Cf. nota 1, capítulo II, da tradução brasileira de Télévision: Lacan, Jacques, versão brasileira, Antonio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993: “Termo correlativo à insistência da cadeia significante. A “ex-sistência” é definida por Lacan como “lugar-excêntrico” para situar o sujeito do inconsciente (cf. Écrits, p. 11). Trata-se, portanto, da existência numa posição de excentricidade em relação a algo.”
[ii] No original: « Je suis non seulement monothéiste mais chrétien, fortifié par la philosophie qui n’a jamais rien gâté. »
[iii] No original: « Il n’y a ni juifs ni grecs, il n’y a ni hommes ni femmes, il n’y a ni esclaves ni libres, car tous sommes un en Jésus-Christ. »
[iv] Rev olution: neologismo que se dá como chiste. Sua singularidade consiste em ser aberto a todos os sentidos, ou seja, em não poder ser traduzido. Ele transmite não a significação, mas a inapreensível significância ouvida na separação entre rêve [‘sonho’] e olution [‘*olução’]. O novo vem deste mais-além do sentido.
[v] Cf. p. 70 da tradução citada na nota [i], acima.
No original: « Toutes les femmes sont folles, qu’on dit. C’est pourquoi elles ne sont pas toutes, c’est-à-dire, pas-folles-du-tout, arrangeantes plutôt ... »