“O QUE É O SABER?”

Paris 

Sessão de 10/01/2007

00:47:59

“O QUE É O SABER?”

Assim que o ser falante[i] começa a falar, supõe-se que há um saber, que este saber está no Outro e que está mais-além de qualquer conhecimento. Em outros termos, o saber tem um preço, tem um custo, que nos põe na direção do gozo. Além disso, ele não pode ser “a-prendido”[ii].

Em outras palavras, todos os dados que se podem ouvir comumente a respeito da psicanálise sobre esse ou aquele tema e que, de fato, são os elementos de conhecimento, se eles não são desinteressantes, estão do lado do saber da experiência da transferência que Lacan chamou “discurso analítico”.

O “discurso analítico” advém de uma experiência de discurso muito específica que, além do mais, está ligada à presença de alguma coisa que ele mesmo vai inventar: o inapreensível objeto (a) que ele coloca na posição de agente.  

Para seguir adiante, partamos do que Freud chamou num texto de Kränkung [‘mortificação’] que foi traduzido como se tratasse de Krankung [‘afetação’]. Resultou daí que esse efeito de censura encobre o que está em jogo. Digo-lhes em alemão: Das Leiden erdultete schweigend als Kränkung que pode ser traduzido por “O sofrimento experimentado ao se calar foi como uma experiência de mortificação” - e não como afetação.

Naquele mesmo momento Freud recebe Lucy R., uma governanta de origem inglesa que está em Viena para gerir a casa de um industrial vienense e cuidar de seus filhos. Ele começa a desenvolver sintomas. Ora, no mesmo momento em que esse texto é feito, coloca-se a questão do se calar [schweigen] na transferência, quando Freud reprova Lucy por não lhe ter dito o que ela afirma saber.

Quando ele a reprova por se calar, não pode levar em conta que há um tempo específico que permanecerá em sofrimento.

Na ultima vez, sempre na mesma perspectiva, com a abordagem deste filósofo tão singular que é Condorcet, eu lhes apresentava a forma pela qual um sonho do “Homem dos ratos” tinha sido interpretado por Freud e a forma pela qual Lacan propôs sua interpretação. Ou seja, o importante para Freud, quando o ser falante sonha que a filha de Freud tem fezes no lugar dos olhos e Freud diz o seguinte: “É fácil de interpretar para qualquer um que conheça o simbolismo do sonho: enfim, ele não a ama pelos seus belos olhos, mas pelo seu dinheiro.” Na época, estamos em 1907, é uma verdadeira descoberta, é algo novo. E Freud se põe em certo nível imaginário e lá permanece. 

Lacan retoma esta interpretação no Discurso de Roma, em 1953, num contexto bem particular. É importante porque se trata de uma dimensão transferencial muito específica que toma a comunidade analítica neste momento: trata-se do que pode fazer liame entre os analistas.

Efetivamente, é a partir daí que se pode ouvir o que ele diz, a saber, aquilo que se nodula no momento da transferência, o analisando e o analista: o fato de que se o analisando quer receber do analista o dom imaginário de uma filha é porque, sem que o saiba, ele espera do analista “dele receber a aliança sob a forma desse sonho-chave que lhe revela o seu verdadeiro rosto, o da morte que olha para ele com seus olhos de betume”.

A interpretação poética de Lacan ultrapassa qualquer significação, decapa, é aquela do martelo da História. Evidentemente, nesse momento especial da transferência, ela pressupõe algo que vou novamente tentar transmitir porque creio ser importante, uma vez que é isso que permite que advenha num dado momento da transferência um novo tempo que possa permitir que algo de novo surja.

Retornemos aos três prisioneiros no fim da guerra, este apólogo que Lacan constrói. Os senhores sabem que ele retoma isso diversas vezes, é alguma coisa sobre a qual ele trabalha muito. Gostaria de trazê-la de volta à tona, pois que a solução, a saída da prisão, não está ligada àquilo que ele vê no outro, pois à medida que fala disso, que volta a isso, à medida que reitera, retorna, ele faz o itinerário de alguma maneira, ele faz uma viagem em direção aos anos 1974-75, em que dirá tudo o que elaborou até então, especialmente sobre aquilo que o um poderia pensar do outro, não era isso que era importante.

O importante é que, em dado momento, cada um dos três encontra-se na mesma posição, a de ser objeto (a), de ser reduzido ao que ele é como resto sob o olhar dos dois outros que, na verdade, poderiam ser quatro, cinco, seis, sete, oito... 

Na verdade, esses dois outros constituem o que se chama nesse momento o Um, “Há o Um”. Ou seja, acho que podemos seguir nessa direção, em dado momento - o analista, porque só há uma transferência, é aquela que ele vai bem dizer também nesse Discurso de Roma, só há uma transferência, a do analista - o analisando, de certa forma, solicitará o modo imaginário. E se o próprio analista é posto em movimento por certo tipo de transferência que toca o inaudito, o invisível e o imaterial, então, em razão do silêncio da significação, algo permite avançar na direção do dom simbólico, aquilo que surge como resposta ao encontro da experiência de mortificação que convocamos como essencial. Por quê?

Porque ela evidencia a importância do corpo do analista. O que é o corpo do ser falante? O que é a voz como objeto para o analista? O que é o som na transferência? Gostaria também de dizer, antes de prosseguir, que, se em 1953 Lacan escreve RSI, é no mesmo ano em que se descobre a estrutura das três letras chamadas ADN. É bastante estranho que houvesse simultaneamente uma escrita que trouxesse a público os dados da ciência e os dados da psicanálise.

Poderíamos dizer que são farinha do mesmo saco, pois que se conhece muito bem a estrutura do ADN em termos bioquímicos, isso não causa problema, mas se sabe que o ADN conjugado ao ARN está na origem das proteínas complexas que vão constituir todos os seres vivos. Acho isso mesmo bastante inquietante. Parece-me que Lacan volta a falar disso umas duas ou três vezes, muito rapidamente, num Seminário, não sei qual. Ora, o que é muito inquietante é que o que é importante em termos das três letras, ADN, liga-se à forma pela qual se vai tornar complexa a organização desta estrutura. Conhecemos bem a estrutura bioquímica, mas todo o interesse vai-se voltar para a complexificação dos diferentes arranjos.

Da mesma forma, é fácil descrever o Real, o Simbólico e o Imaginário, mas toda a questão é saber como o nó se sustenta, ainda que saibamos que é o Real que o sustenta, mesmo que saibamos que é o objeto (a) que mantém o nó.

Pode-se dizer que em dado momento na transferência – é uma forma de retomar o que acabo de lhes dizer, mas de outra maneira – pode haver a possibilidade de o analista estar estimulado – porque há alguma coisa ligada a um movimento pulsional -, estar estimulado de tal forma que ele seja o soberano que mantém o nó de algum modo. Esta seria uma maneira de retomar o que pode ser ouvido, mas não compreendido. Ou seja, na aparição deste agenciamento, não se trata do pensamento ou da compreensão, mas de um momento em que o pensamento está em silêncio.

É preciso haver esse tempo, tempo de sideração, Kränkung, que Lacan escreve com uma barra sobre o S, tempo de rombo, de irrupção do Real. Mas será que isso pode ser aceito? Será possível dizer sim a essa alguma coisa, a esse resto que aparece nesse momento? Aí está toda a questão.

Se sim, haveria a possibilidade de haver neste dado momento uma certa nodulação - acho que poderíamos chamá-la “soberana”; veremos por que digo isso tudo agora, se depois tivermos tempo de falar sobre isso – ou então, digamos, uma nodulação “nobre”, nobilis. Os senhores sabem que vem de gnobilis, onde basta acrescentar antes um “i” para passar a ignóbil... Basta que haja certo tipo de nodulação que está na linguagem, nas palavras com as quais falo, e não na categoria dos aristocratas. Basta que haja alguma coisa que funcione em termos da própria linguagem para que a nodulação do nobilis, do nobre, funcione de certa forma e faça ouvir alguma coisa do corpo e do gozo do corpo.

Seria isso, o corpo da língua, o topos onde alguma coisa se ouve, mas não com as orelhas; alguma coisa se vê, mas é invisível. É sobre isso que gostaria que de parar porquanto neste momento, efetivamente, estamos numa configuração absolutamente impensável em que é a partir do três, ou seja, do real, que se acede ao dois.

Quando raciocinamos espontaneamente, é claro que passamos do dois ao três. Na verdade, a dimensão do três, do real, é aquilo que Freud descobre. Será nomeado mais especificamente por Lacan e conduzido a outro lugar, ao patamar dos dados históricos.

É claro que quando alguém fala em termos da cura constrói alguma coisa. Mas o que será que pode vir de novo se o analista não permanece nos dados históricos compreensivos e se, num dado momento, algo que está mais-além dos dados históricos que estão no lado do prazer e do desprazer funciona? 

Para prosseguir, voltemos a Condorcet, a este “Condor” descoberto no solo, às 14 horas, em 29 de março de 1794, face contra o chão, os braços estirados ao longo do corpo.

O que vem em primeiro plano é a autópsia, o opsis, o que se vê, ou seja, do que será que morreu? Observa-se que lhe sangrou o nariz.

Não irá haver uma verdadeira autópsia, mas é da mesma ordem: vê-se o que ele tem nos bolsos, se faz o máximo de busca desta forma. Isto termina com o tampão sobre a fronte, o tampão da prisão onde está e que deverá deixar no dia seguinte para ser conduzido à guilhotina depois de ter comparecido por formalidade perante o Tribunal Revolucionário.

A pergunta deixada como resto, o achado, o único que vale, se deve ao fato de ele progressivamente se engajar ao espírito revolucionário, embora não como terrorista.

O que Condorcet transmite é que se pode ser revolucionário sem participar do terror. Mas, em dado momento, ele é tomado pelo real que encontra em si mesmo. Mais precisamente, o real que encontra nos terroristas, principalmente Robespierre, o congela. Assim, ele é ultrapassado por causa da continuidade real que o compele a sair de sua atitude reservada para escapar da experiência de mortificação que ele não pode aceitar. Como Freud, como nós mesmos, ele não pode abri-la; mais exatamente, escrever.

Ele cai no chão, aspirado por aquilo que se desencadeia como terror...

Ele deverá se esconder. Mas agora surge uma outra coisa em razão de algo que ouve na voz de sua mulher.

Ainda que quisesse provar que ele não era um traidor da Nação, ou seja, calar-se, sua mulher, Sophie, vai um dia lhe dizer – imagino que ela precisou ver a fixidez do real em seu corpo – para escrever alguma coisa que ela sabe que ele sabe: Esquisse d’un tableau historique [“Esboço de um quadro histórico”].

Não é a história. Existe a palavra “quadro” que é absolutamente importante: trata-se de un tableau historique des progrès de l’esprit humain [“um quadro histórico sobre os progressos do espírito humano”]. Muitas vezes se usa o título Esquisse du tableau [“Esboço do quadro”].

Um quadro... Deixava-me levar por esta palavra “quadro” para pensar que era, na verdade, também um quadro que ele deixava pelo corpo. Depois de nosso último encontro, li o ritual do sacramento da ordenação, pois que eu lhes dizia que o corpo estendido me fazia pensar nesse ritual, para saber onde estão os braços em relação ao tronco. 

Onde estão, de fato, os braços? Bem, isso não é dito precisamente. A única coisa que é dita no ritual é que o ordinando está “pro sternado”, pro sternum.

Quando conversei sobre isso com um padre, ele me disse que as mãos ficavam cruzadas sob a fronte. É esse o uso desenvolvido e mantido, o que se vê. Pois poderia ser também os braços estendidos ao longo do tronco do corpo, já que não está definido.

A dimensão do tronco do corpo antes das ramificações que aparecem como membros do corpo é uma questão importante porque creio que pode nos  revolucionar justamente no sentido de que nos faz sair de um tipo de torniquete na significação e isso não pode ser feito sem evocar algo que – isso é completamente paradoxal, mas é para o receptor, para aquele que o vê – teria uma relação com o gozo.

Claro que não é o corpo que está diante de nós, que goza como tal, ainda que... não se saiba bem o que acontece neste momento. O que será que acontece quando olhamos um cadáver? O que é certo – os senhores, é claro, já passaram por essa experiência – é que ao cabo de certo tempo vê-se que ele não é imóvel.

Claro que isso vem de nós. Mas ainda assim há alguma coisa que faz com que não se possa esquecê-lo como o real do cadáver, já que ele põe algo em movimento dentro de nós. Então, por que a guilhotina? O que será que a guilhotina pensa disso? Talvez Sansão soubesse alguma coisa sobre isso, mas guardou silêncio, mesmo assim não totalmente. Vou deixá-los com esta pista.

Tradução: Leila Longo

 

NOTAS DA TRADUÇÃO BRASILEIRA


[i] No original, em francês, parlêtre [“l’être parlant”], um neologismo para “ser falante”.

[ii] No original, em francês, Jean Charmoille diz ap-pris, um neologismo que une os sentidos de appris (‘aprendido’) e pris (‘preso’). Em português, o particípio passado de ‘prender’, utilizado na voz passiva que pode também se tornar um adjetivo, não é ‘prendido’, mas ‘preso’. Portanto, ap-pris refere-se, a ‘aprendido’ e ‘preso’.