Sessão de 22/11/2006
00:54:55
Vou começar dizendo que estou muito contente de estar com vocês depois de ter sido subitamente “retido” no dia 31 de agosto... E é certamente no só-depois dessa retenção, dessa parada, que tomo a palavra, porque acho que, quaisquer que sejam os próprios fatos, isso é alguma coisa que não posso deixar de receber como algo que se reenvie ao discurso.
Já havia encontrado o título do seminário: “O que é o saber?” Mas essa parada pode trazer alguma coisa de novo: é o bê-á-bá da descoberta freudiana que Freud nomeia sideração e que pode ser a pior ou a melhor das coisas.
Portanto, falar do saber nessa perspectiva, evidentemente, me reconduz à descoberta freudiana, à forma pela qual ele mesmo pôde ser retido, num momento ou noutro, em sua experiência como psicanalista e à forma pela qual nos transmite o que respondeu ou não ao que se lhe apresentou no momento desta retenção - porquanto é preciso uma retenção, uma parada, para que possa surgir a dimensão do real.
Tanto estamos no âmbito daquilo que Freud já disse, de uma forma ou de outra, ou daquilo que Lacan já disse, de uma forma ou de outra, que estamos numa perspectiva em que justamente algo novo não pode acontecer. Entretanto, toda a questão é saber como é possível que venha uma nova via. Em termos da transferência, é isso que é importante numa cura, pois é isso que nos guia: é alguma coisa de novo.
Nessa perspectiva, eu gostaria essa noite de dar então alguns limites a essa dimensão do saber e depois avançar num encontro, que evidentemente é uma ficção, entre Condorcet e o Psicanalista. Em razão do que gostaria de transmitir, esses não são os elementos para conhecer Condorcet: os senhores os encontrarão muito bem no livro Condorcet, un intellectuel en politique [“Condorcet, um intelectual em política”], de Robert e Elisabeth Badinter.
Mas se não se faz senão repetir o que os outros dizem, mesmo que se enfeite um pouco mais, em minha opinião se está fora da dimensão que tento de imediato apresentar esta noite: a dimensão que visa àquele que pode fazer com que, em dado momento, um ser falante possa encontrar alguma coisa, sem que ele saiba disso, evidentemente, e que possa estar dentro da possibilidade de responder a isso por meio de alguma coisa da qual ele não tem a menor idéia. Seria isso de certa forma: levar em conta o que Lacan chama saber no real.
Ainda algumas palavras sobre essa perspectiva do saber para introduzir isso: de imediato, com Freud, não exatamente com base no que escreveu em seus artigos, mas, sobretudo, no âmbito do que ele transmite mais-além.
Proponho-lhes que nos situemos no fim de 1892, quando a “Comunicação Preliminar” é escrita por Freud e Breuer, um pequeno artigo que está no começo dos Estudos sobre a histeria sobre a forma pela qual funciona o recalque e, por outro lado, como a neurose de histeria é estabelecida... Retenho apenas uma coisa a respeito da parada: o fato de os tradutores habituais terem se esquecido de pôr o trema sobre uma palavra. Traduziu-se Krankung em vez de Kränkung. Ora, Krankung tem a ver com a doença; Kränkung é a experiência de mortificação.
Volto a esta escritura, porque há justamente o escrito, porquanto o trema sobre o a é uma inflexão esquecida pelos tradutores e isso, de um só golpe, muda tudo porque o que é omitido como causa do sintoma é o fato de que há Kränkung, experiência de mortificação, e não a doença, “afetação”, como está traduzido em francês. Esta experiência de mortificação é alguma coisa que tem a ver com a pulsão de morte, sem dúvida. Ela já está aí.
Portanto, os senhores podem ver que quando existe esta dimensão da parada no discurso é possível recuar por conta da experiência de mortificação, mas também é possível que uma resposta possa surgir. É este o surgimento de algo novo. E poderíamos dizer que especialmente a partir desse momento Freud já está no caminho, é claro, daquilo que descreverá em 1905 como o chiste. Mas esta via em direção à pulsão de morte é sempre articulada no dualismo em relação à pulsão de vida, já que toda a questão é como a mortificação, ou seja, o desaparecimento do saber já conhecido vai dar a possibilidade do nascimento de um topos que está na origem do novo que está sob a égide da pulsão de vida.
Digo-lhes que é algo estranho, evidentemente, porque é claro que são pensamentos que me vieram particularmente durante os dias em que eu estava imobilizado. Os senhores sabem que quando há uma fratura óssea, há os macrófagos que vêm fazer o seu papel, ou seja, devorar os resíduos. Chamam-se osteoclastos e assim preparam o terreno para os construtores, os osteoblastos, que garantem a osteogênese que acontece habitualmente sem que precisemos pensar nela.
Esta parada foi necessária para que eu pensasse no que aconteceu, sem que eu tivesse consciência disso, apesar de eu não estar desprovido de saber: sem cessar, no âmbito do corpo, há alguma coisa do real que se desenvolve, que é completamente invisível e que a ciência pode atestar como uma articulação entre a morte e da vida. Está escrito no próprio seio do funcionamento celular.
Claro que ainda não estávamos neste ponto quando Freud pôde dizer alguma coisa sobre esses dados. Mas é bastante surpreendente saber que as células de nosso corpo permanentemente desaparecem e que outras aparecem: este processo de vida e morte está no próprio âmago da vida. E saibam que uma das teorias sobre o câncer seria justamente a de que as células que estariam destinadas a morrer não morrem mais e são essas que desencadearão o transtorno extraordinário da proliferação patológica.
Portanto, retorno à experiência de mortificação, Kränkung, sob a pena de Freud, que surge muito cedo, que pode ser considerada, no fim das contas, como um lapso. Não podemos ter certeza disso, é claro, mas há algo ali que se escreve [s’écrit]. Por isso mesmo escrevi no quadro sonécrit [“som escrito”], um site que acabo de fazer e que os senhores podem consultar: www.sonecrit.com
Há algo que se escreve e que soa. Ora, será que na mesma época alguma coisa desta ordem pode ter acontecido no gabinete de Freud na experiência da transferência?
Ele recebe Lucy R., uma governanta inglesa que veio se consultar porque tem sintomas, é depressiva, tem uma rinite purulenta... Enfim, tem manifestações. Com Lucy R. Freud vai encontrar progressivamente o que está na origem do sintoma, uma cena particular, mas não vou entrar em detalhes sobre isso esta noite. Vamos ao ponto do discurso que nos interessa porque retoma uma cena especial onde Freud está em sua elaboração: o que está na origem do sintoma é o conflito interno, e ele reconhece que o conflito se situa em termos de uma promessa que ela fez à mãe das crianças de que ela cuida segundo a qual ela tomaria conta das crianças. Ora, um dia ela recebe uma carta de sua mãe dizendo que está doente e que acha que ela deve voltar à Inglaterra. Este é o primeiro conflito; outros aparecerão progressivamente.
Enquanto ela fala, Freud tem uma idéia, a idéia do pai. Entra em jogo a sedução do pai, o amor do pai. Nesta época ele ainda não tinha tido o sonho que segue a morte de seu próprio pai e aí dispara alguma coisa para Lucy R. Seria bastante interessante ouvir a voz de Freud e a de Lucy R. e de encontrar os olhares desses dois. Isso diria muito mais do que é dito pelo próprio Freud.
Freud lhe diz: “Escute, cara amiga, acho que o que está na origem de seu sintoma não é o que você pensa, é o fato de que você ama este homem que é pai das crianças, o que você não pode aceitar.” Agora é melhor seguir o ponto onde se está subitamente no discurso. De fato, estamos no discurso no sentido de Lacan. Imediatamente, ela lhe responde: “Ah, sim, eu sei disso, eu sei disso.” E Freud retruca: “Mas se você já sabe disso, por que não me disse?”
Nesta réplica específica, há algo que gostaria de tentar abordar esta noite e nas próximas noites. Ou seja, quando Freud elabora naquele momento, isso era evidentemente novo, todo esse saber está lá como errata, isto é, para ser adivinhado e dado ao paciente - que o amor a esse homem é um deslocamento do amor ao pai, ele está no âmbito de um trabalho do pensamento. E, evidentemente, o que vai surpreendê-lo é que ela já saiba disso.
Em outros termos, ele não suporta esta é sua leitura que ela não lhe diga isso e estamos diante deste saber escrito em seu resumo. Poderíamos dizer que é um saber de consistência imaginária, um saber definido, organizado, limitado, que se compreende. A questão que se pode colocar é que, de fato, na troca imediata que acontece na resposta de Freud, alguma coisa não pára de não se escrever.
Lucy R. deixa supor que há um outro saber além daquele que ela acaba de lhe dizer. “Eu já sei disso” pressupõe que há um outro saber além deste, alguma coisa que não pára de se escrever.
Daí resulta que por extensão ao amor de transferência ela lhe vai trazer todos os elementos que confirmam o que ele acabou de lhe dizer, é claro, mas também o fato de que nos dias seguintes o sintoma vai aumentar, ou seja, a rinite purulenta aumenta e há uma interrupção na cura. Bastante rapidamente, ela voltará a lhe dizer: “Agora eu vou bem”.
Portanto, é sobre o fato de que Freud, é essa a questão, não foi detido por alguma coisa que está presente no dizer e não no dito de Lucy R., que quero chamar a atenção porque repito o que nos falta, é claro, é o que aconteceu de fato num silêncio inaudito que certamente não é tão longo, mas onde deve ter-se passado alguma coisa importante. Essa é a nossa experiência: o que se passa em certos momentos na transferência. Será que podemos ser receptores de um outro saber de ascendência imaginária que se desdobra, que se faz com que se compreenda e que faz com que se siga a história? Esta é a questão. É outro saber, se seguimos Lacan, na verdade um saber de duas ordens: é o saber inconsciente e o saber no real.
É bastante complicado. O saber inconsciente é o saber de ascendência simbólica; o saber no real é algo de que falaremos um pouco esta noite, pois o que é importante é surpreendê-lo assim que se deixe entrever apenas um pouquinho, porque é algo que aparece e logo desaparece. Dito de outra forma, será que é possível, será que nos é possível, ouvir alguma coisa que é da ordem de um gozo, ouvir algo que se escute, ouvir algo “que se diga que permanece esquecido por trás do que se diz naquilo que se ouve”?
O que será que se ouve? Eis a questão. Eu não sabia que iria encontrar todas essas perguntas num homem que viveu aproximadamente um século antes de Freud. Chama-se Marie Jean Antoine Nicolas Caritat, marquês de Condorcet.
Isso é um pouco daquilo que gostaria de começar a abordar com os senhores esta noite. Propor uma cena, a ficção, a do encontro entre Condorcet e o Psicanalista na dimensão do discurso. De minha parte, encontro aí o que diz Lacan em seu Seminário de 21 de maio de 1974. Parafraseio:
Comecei a me tornar muito sensível quanto a tentar cercar um pouco o que é o inconsciente, porque há a dimensão da palavra, função e campo. E depois, onde agora estou apenas que não se marquem aí estas pequenas artimanhas porque tudo está sobre uma linha , para tentar abordar isso: é importante partir de como a palavra e o ser sexuado funcionam juntos.
Não sexual, sexuado, os senhores conhecem a fórmula da sexuação. Sexuado quer dizer que se definem o homem e a mulher em relação à linguagem. É aí que se definem, não pelo fato de se estar sob a bandeira homem e sob a bandeira mulher. Há, sem dúvida, uma parte feminina em todo ser falante, porquanto é a parte feminina que nos permite - na medida em que ela nos põe em direção deste outro gozo que não o fálico -, que nos põe na direção do ouvir.
De imediato, uma questão se coloca: o que é a voz? O que é o som? Uma vez que o som não se reduz ao sonoro, o que é o corpo? E como será que o ser falante consegue se desembaraçar de seus gozos, porquanto aquele que se vai chamar homem é aquele que está sob a lei fálica? Como será que o homem conseguirá se desembaraçar deste cancro que é o inconsciente? Uma vez que está furado, que está com um cancro e como uma mulher e não como a mulher, uma mulher, ela que é, cito “muito mais arejada que o homem em relação a seus gozos”, como será que isso vai poder se encontrar no discurso?
É principalmente nesta direção, me parece, que o ensino de Lacan nos conduz, isto é, ele estende Freud para além de tudo aquilo que se pode saber dos limites de Freud. Esta é a questão com a qual gostaria de ocupar os senhores por meio deste homem muito especial, Condorcet, em seu suposto encontro com o Psicanalista. O que será que ele faz para que num dado momento ele estivesse num estado bastante particular? Em minha opinião, ele fala deste estado quando está escrevendo: este estado é aquele do Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain [“Esboço de um quadro histórico sobre os progressos do espírito humano”]. O que será um esboço?
Cito aos senhores o que qualquer um que o conhecesse bem poderia dizer. Diderot, por exemplo, no Salão de 1775: “Os esboços têm comumente um fogo que o quadro não tem: é o momento do fervor do artista, a pura verve, sem nenhuma mistura que o depois da reflexão em tudo veste. É a arte do pintor que se expande livremente sobre a tela, a pena do poeta, o lápis do desenhista hábil: têm um ar de corrida e diversão. Vejo declarada num quadro uma coisa. Quantas coisas que mal estão anunciadas poderia eu supor no esboço?”[i]
As vozes do silêncio, de Malraux, fazem eco com Diderot: “O esboço era, em princípio, um estado de obra anterior à sua realização, à execução deste estado e sobretudo, mas existia um tipo particular, aquele em que o pintor, sem levar em conta o espectador e, indiferente à ilusão, havia reduzido um espetáculo real ou imaginário a este pelo qual se torna pintura, mancha, cor, movimento. O croqui é uma nota, certos esboços são um fim, e porque eles são um fim, há uma diferença de natureza entre eles e o quadro realizado. Realizar certos esboços não fora de forma alguma terminá-los, aqueles que terminaram os maiores para conservá-los, os de Rubens, os jardins de Velázquez, não nos dão a impressão de representações inacabadas, mas de expressões plásticas tão completas que sua submissão à representação debilitava e talvez destruía. A arte entrava em conflito com o finito. E a fronteira entre o esboço e o quadro começava a perder sua precisão.”[ii]
O que imagino é que há alguma coisa desta ordem e vou relatar como ele chegou lá, é claro, no momento em que, estando sob o golpe de uma sentença de acusação, ele deveria se esconder. Estamos em julho de 1793. Ele deve se esconder e se refugia na casa de Madame Vernet. Esta é a história a partir da qual tentarei apontar o que está mais-além para dar conta do artista que é Condorcet nesse momento.
Portanto, para chegar a esse ponto específico, vou bastante rápido: estamos no outono de 1791, é o começo do Legislativo onde seu prestígio está em alta por um ano aproximadamente. Ele já era bastante conhecido, naturalmente: antes da Revolução, era membro da Academia das Ciências e depois membro da Academia Francesa, da Academia de São Petersburgo... Mas, ele não pode falar em público.
Ele tem a pena, como ele mesmo diz, mas desde que se trate para ele de subir à Tribuna, há uma voz que não suporta e, de fato, não o escutam: esta é a primeira coisa.
Quando do Legislativo, de fim de 1791 ao outono de 92, ele começa a encontrar dificuldades com Robespierre e só pensa em uma coisa: o projeto de uma Constituição.
De resto, ele está sensível ao fato de haver um conflito crescente entre os Girondinos e os Montagnards. Ele diz a si mesmo que é absolutamente necessário que esse conflito não degenere porque é preciso que a França consiga se defender quando é atacada em suas fronteiras. De fato, o que o anima é o projeto de uma Constituição que redige com alguns Amigos.
Mas, o motivo pelo qual ele não mede esforços - e é aí que se poderia dizer que como homem político ele é um pouco ingênuo, mas veremos até onde isso vai levá-lo , e ele não se dá conta de que o que enfim interessa a todos no início da Convenção, é o que se vai fazer do rei.
A segunda coisa é que os Montagnards sonham tão-somente com uma coisa: eliminar os Girondinos. E ele se distancia dos Girondinos.
No dia 15 de fevereiro, ele sobe à tribuna para ler o projeto da Constituição, mas não pôde falar por muito tempo. Rapidamente, é obrigado a parar, não pode continuar e é Barres que lerá o restante do projeto.
É importante ressaltar que todo o trabalho que fez, porque foi de fato ele que mais se deu ao projeto, não será recebido pelos deputados por cujo motivo falo aos senhores: de um lado, é o rei; de outro, a luta entre os Montagnards e os Girondinos... E, sobretudo, há ainda outra coisa: ninguém quer uma Constituição, porque a Convenção desapareceria. Ora, era necessário que a Convenção durasse, principalmente para os Montagnards que, progressivamente, tomam o poder a partir do que acontecerá em torno da decisão da morte do rei, porque há um conflito entre Robespierre e Condorcet. Condorcet propõe, é claro, que os deputados não decidam sobre o que se deve fazer com o rei. Além disso, ele é contra a pena de morte. Para ele, é preciso designar homens específicos que conheçam o que é a lei, ou seja, os Magistrados, e que definam em conjunto o que se fará com o rei.
Dois dias depois, Robespierre explica que não cabe à Assembléia decidir o destino do rei, pois ela não foi feita para isso. Mas é necessário que ela tome uma decisão, por medida de saúde pública, e isso quer dizer que se deva decidir sobre o destino do rei sem julgamento.
Em outros termos, de um lado, Condorcet, um homem completamente obediente às leis, definiu que se deve decidir o destino do rei a partir da lei; de outro, Robespierre põe em votação o fato de o destino do rei ser decidido sem julgamento.
Eis, portanto, a preocupação no momento em que foi terminada a Constituição em dezembro de 1792: o rei será executado em janeiro de 1793. Portanto, este é a primeira coisa.
Mas há outra coisa desde que ele apresentou a Constituição à Assembléia no dia 15 de fevereiro de 1793. Dias depois, os Jacobinos, de imediato enfim, é de fato a política! decidem que em caso algum esta Constituição deverá passar e que é necessária que venha uma outra.
Portanto, um projeto deverá ser elaborado e, nos dois meses seguintes pois que havia dois meses durante os quais se reportava à decisão com referência ao projeto de Constituição que Condorcet apresentou era necessário encontrar uma outra solução para que se definisse uma outra Constituição. Chegamos ao dia 24 de junho, data em que é votada esta outra Constituição.
Tudo isso revolta muito Condorcet: a recusa do projeto de Constituição, a morte do rei. Ele acha tudo isso escandaloso. Claro que ele não é de jeito nenhum a favor do retorno da monarquia: ele compreendeu, desde que o rei se foi, desde que esteve em Varennes, que o rei não tem o direito de voltar. Para ele isso era de uma lógica matemática. Já vou falar sobre isso.
Uma terceira coisa aparece: no dia 2 de junho, os policiais cercam a Assembléia e exigem que os deputados que estão lá tomem uma posição em relação a vinte e nove Girondinos. Ou seja, decidem por sua condenação. É evidente que esta é uma coisa totalmente fora de qualquer disposição legal.
Esses três elementos farão com que Condorcet, preso num turbilhão de fatos, não possa mais intervir.
Então, o seguinte: ele sabe que não deve subir à tribuna, porque se o fizer será uma catástrofe. Portanto, ele toma sua pena e escreve um artigo intitulado Aux citoyens français pour la nouvelle Constituition [“Aos cidadãos franceses pela nova Constituição”], a dos Montagnards, votada em 24 de junho.
Neste artigo, há dois pontos importantes. O primeiro ponto é o que afirma que aqueles que parecem adular e se referir ao povo ele evidentemente visa a Robespierre o fazem pensando tão-somente em uma coisa: manipulá-lo. Essas pessoas detestam o povo. Esta é a primeira coisa e isso ainda pode passar. Mas a segunda coisa é o que vai dizer que o projeto desta Constituição feita rapidamente, pouco importa como, visa a fazer, essencialmente, com que a monarquia retorne. Isto é uma calúnia, isto não está de forma alguma no projeto.
A partir daí, alguns dias depois, na Assembléia, o Montagnard Chabot chega, trazendo na mão uma carta. Ele diz: “Cidadãos, tomei conhecimento, e os senhores também, de que entre os senhores há um traidor, e posso lhes dizer quem é, porque tenho em mãos uma carta ninguém jamais lhe pediu para ler o que dizia a carta onde se encontram as mesmas frases que estão nessa declaração aos cidadãos da qual falei.”
O que me esqueci de lhes dizer foi que ele não a assinou de fato; antes, a riscou grosseiramente. Pode-se até mesmo pensar que, nesse momento, num estado particular, Condorcet que reagiu como se ainda estivesse no Antigo Regime reagiu como se fosse suficiente não colocar seu nome para não ir à Bastilha. Como não fazia absolutamente mais parte daquele mundo, estava num outro universo.
Portanto, Chabot pede que seja decidido contra Condorcet, isto é, sua prisão. É isso que é votado. Depois disso, Condorcet vai-se esconder, pois que quando vão buscá-lo em casa, Rua de Lille, ele não está... Foi mantido ciente das fugas e se esconde.
Bem, essa é a história que se conta. Isto é o que Freud e Lucy R. de uma forma ou de outra se contam. O que nos interessa é o discurso. Aí está a aposta da transferência.
Claro que Condorcet não tinha senão uma idéia: escrever o que vai chamar de “fragmento de justificativa”. Foi preso com base no fato de ser necessário que consiga provar que ele não era um qualquer que devesse ser detido como traidor.
Mas algo novo lhe virá do Outro, na voz de sua mulher, precisamente para mandá-lo escrever a justificativa quando se esgota o Esboço. Ele muda completamente de discurso. Isso me interessou muito porque me lembrou do que escrevi sobre o que se passa entre Constance e Mozart quando se trata de escrever a “Abertura” do Don Giovanni.
Em 1786 ele se casou com Sophie de Grouchy, vinte anos mais nova que ele, muito bonita, cheia de espírito, que abriu um Salão. Vem a encontrá-lo regularmente com alguns amigos e, sem dúvida, ela via no rosto deste homem uma devastação, o fato de estar paralisado, de estar enredado em alguma coisa, tudo o que o real pode fixar e congelar. Em certo momento ela lhe diz:
“Mas...” não sei o que ela diz, mas imagino que ele ouve alguma coisa em sua voz, mais-além do dito que lhe diz - “Será que você não se lembra de que há um ano, há dois anos, você não parava de me falar sobre um projeto? Será que você se lembra disso? E esse projeto era algo de absolutamente importante. Tenho certeza de que você o tem na cabeça. Você não precisa de livros, você está aí escondido, não há necessidade de livros. Você tem este projeto na cabeça. Abandone a justificativa para escrever o Esboço.”
Após a morte de Condorcet em 1795, quando vai publicar o projeto, ela de fato escreve uma pequena nota dizendo que seu marido abandonou a justificativa para escrever o Esboço “A meu pedido”.
É isto que é importante: esse algo pelo qual se pôde passar naquele momento porque acho que há um momento totalmente particular em que a parte feminina de Condorcet pôde entrar, vir à cena e dialogar com a parte masculina, porquanto ele ouviu na voz de uma mulher, nada mais que uma mulher, qualquer uma, sua mulher que ele ama e que o ama, alguma coisa de inaudita e de invisível. Algo que tem essa relação arejada com o gozo numa mulher de que Lacan fala; algo do real de uma mulher. E isso é inapreensível, não se pode dizer o que é ao certo. Sem dúvida, existe aí um momento específico em que o saber inconsciente dá acesso ao puro real que empurra na direção do Esboço.
Portanto, foi necessário porque é no só-depois que se pode dizer que um dia, este o finalmente o encontro, ele ouça alguma coisa: é essa a forma de falar de um outro discurso ou de um outro gozo. Algo que passe pelo corpo e que nesse momento algo o habite. De fato o que ele escreve nesse momento é de fato o que o escreve.
Ele escreve alguma coisa que é completamente subversiva para o momento, par a época, pois que reina a teoria da degenerescência. Escreve esta coisa absolutamente impensável: que o ser humano é aperfeiçoável. É algo que ele encontrou a partir do que encontrou nos matemáticos. Não vou desenvolver isso. Vou somente fornecer, diria eu, alguns traços de lápis de cor que estão nesse Esboço para compreender que não havia nada a ser feito nessa história com Robespierre. Absolutamente nada.
Bem, o que é que ele escreveu? Ele foi lá. Por que ir lá? Porque ficou fascinado por todas aquelas pessoas que subiam à tribuna, que sabiam falar quando ele não podia fazê-lo e chega àquilo que está na origem do saber.
Ele conhecia muito bem Condillac e a teoria das sensações que estão na origem do saber para Condillac. Mas ele torna preciso que o homem não é um receptor passivo, pois que essas sensações devem ser deixadas sob a tutela daquilo que chama “a razão”.
É a razão matemática, algo que permanentemente vai fazer com que tudo que seja recebido seja, imediatamente e sem cessar, retrabalhado. A razão é esse receptor que instruere e ele se separa dos Montagnards e de Robespierre que vão falar de educação. Ele fala de instrução.
Instruere, em latim, é ‘dispor em camadas”, não é o dux, o chefe da eduxcação. In struere é dispor em camadas, o que significa que cada vez que alguma coisa nova chega, todos os conhecimentos de algum modo são postos novamente em jogo para que novas relações surjam a relação com o saber é comparável a um quadro, é um esboço.
Para ele a razão é alguma coisa de inapreensível que está bem na origem, é claro. Há, portanto, o exterior radical - se saímos do sensualismo, já vemos aí a dimensão do Outro, evidentemente, mas não no sentido das percepções sensoriais - e há este receptor que está lá com a razão que o anima. O que ele chama a razão, poderíamos chamá-la de modo diferente, evidentemente. E o que importa é o que no um por um, como dizemos nós, os psicanalistas, aqueles que são os detentores do saber devem transmitir o que ele chama as noções do saber elementar. Dito de outra forma, a questão, não se trata da quantidade de saber, é que há, é claro, uma desigualdade de saber, há toda uma desigualdade entre os humanos no nível intelectual tanto quanto há desigualdade psíquica.
Ou seja, a igualdade não está aí totalmente, não está absolutamente no fato de que seria necessário que todos soubessem a mesma coisa - seja isso muito ou pouco. A igualdade está no fato de que tenhamos os conhecimentos elementares, isto é, a partir dos quais poderemos fazer um julgamento crítico que se possa desenvolver em relação àquilo que nos vai ser dito, àquilo que nos vai se proposto como lei.
Portanto, o ser humano está permanentemente em reparo, e é ele que autoriza o reparo na Constituição em si, no funcionamento político.
A igualdade está ligada ao fato de que somos todos iguais em relação ao saber elementar.
Claro que Newton pensava um pouco mais que qualquer outro, mas todos estavam submetidos à lei da gravidade universal. Newton também, como todo mundo. Não porque ele sabia, não porque encontrou o princípio da lei da gravidade universal que não estaria a ela submetido. E a cidadania, se ela é importante, é porque é preciso que o poder político permita que todos aqueles chamados cidadãos disponham do saber elementar. Assim, os cidadãos não serão mais ignorantes como antes.
Aí estão, grosso modo, os elementos, os traços que estão nesse esboço. E imagino que falarei sobre isso com Casanova da próxima vez porque Casanova se encontra, enfim, na mesma posição.
Os senhores sabem que no fim da vida Casanova se encontra num castelo e escreve, entre 1789 e 1798, a História de minha vida. Poderíamos dizer que Condorcet, quando escreveu o Esboço estava na mesma posição subjetiva, a do só-depois no sentido de que deixa o escrito, os traços importantes, isto é, uma outra coisa diferente das histórias. Por exemplo, o que ele retém de tudo que está instituído, do clericato, do clero, da Igreja, é que isso visa a que a razão esteja paralisada.
Ou seja, o que tentei desenvolver do lado deste espírito crítico que se desenvolveu pela razão, o que foi ensinado pela via das crenças e dos dogmas. É assim que ele fala disso. São coisas que deverão ser discutidas, mas foi assim que ele a encontrou, é de lá que ele vem e, portanto, tudo o que está instituído como tal, congelado isso toca muito os psicanalistas em nossa relação com a instituição e que obedece às leis imutáveis e justamente reenviam ao fato de que de uma maneira ou de outra, não há evolução possível.
Ele vai, efetivamente, reprovar os Montagnards, este clericato laico, e vai tratar Robespierre de “falso curado”.
Vou parar por aqui esta noite.
Tradução: Leila Longo
NOTAS DA TRADUÇÃO BRASILEIRA
[i] No original: « Les esquisses ont communément un feu que le tableau n’a pas : c’est le moment de la chaleur de l’artiste, la verve pure, sans aucun mélange de l’après que la réflexion met à tout. C’est l’art du peintre que se répand librement sur la toile, la plume du poète, le crayon du dessinateur habile, ont l’ai de courir et de se jouer. Je vois dans le tableau une chose prononcée : combien dans l’esquisse y supposais-je de choses qui sont à peine annoncées ? »
[ii] No original: « L’esquisse était en principe en état de l’œuvre antérieur à son achèvement, à l’exécution de cet état et surtout, mais il existait un type particulier, celle où le peintre, ne tenant pas compte du spectateur, et indifférent à l’illusion, avait réduit un spectacle réel ou imaginaire à ce par quoi il devient peinture, tache, couleur, mouvement. Le croquis est une note, certaines esquisses sont une fin, et parce qu’elles sont une fin, il y a une différence de nature entre elles et le tableau achevé. Achever certaines esquisses ne fut nullement le terminer, celles qu’avaient choisies les plus grands pour les conserver, celle de Rubens, les jardins de Velázquez, ne nous donnent pas l’impression de représentatioms inachevées, mais d’expressions plastiques complètes que leur soumission à la représentation affaiblirait et peut être détruirait. L’art entrait en conflit avec le fini. Et la frontière entre l’esquisse et le tableau commençait à perdre sa précision. »