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Em Paris SEMINÁRIO DE JEAN CHARMOILLE
IMAGEM DA VIDA, VIDA DA IMAGEM
Ainda que as mídias se dediquem a fazer crer que as imagens são nosso destino, por que reivindicam um outro destino para o ser falante?
A história cujo esboço nos propomos a fazer tem início há dois mil anos com um evento sem precedentes proposto como um mistério: encarnação viva do pai, sendo o filho uma imagem invisível deste pai.
Um saber sobre a vida é suposto à imagem. O pensamento patrístico, sensível a esta colocação inapreensível, leva em consideração as mudanças.
Este fato é excessivo para o poder temporal que não conhece senão o peso político da imagem. O imperador romano Constantino I reuniu o Conselho de Nicéia em 325 para suspender a elaboração que começava a avançar.
Mas a vida da imagem está além da fixidez dos dogmas, ela encontra refúgio em Bizâncio no segredo da visibilidade dos ícones.
Diante de sua crescente profusão, o imperador Constantino V se cerca de teólogos e desencadeia a primeira crise do iconoclasmo em 745. Esta será amainada depois de sua morte pelo Conselho de Nicéia II em 787. Trinta anos mais tarde, o poder político tem uma recidiva pelas mãos de Leão V. Os argumentos são os mais sutis. Os padres da igreja deverão recorrer ao Organon de Aristóteles para responder por sua iconofilia.
Os anos passam, Roma retorna ao primeiro plano. O Renascimento italiano e as Luzes dos Enciclopedistas optam pelo Opsis. Outras imagens se desenvolvem, a igreja e o poder político as recusam.
Será que o desvio corporal contemporâneo ostentado pelo espetáculo das visibilidades mundanas esqueceu-se de que a vida da imagem é a imagem da vida, de ser invisível?
A psicanálise seria a resposta há um século porquanto ela possa criar na transferência uma articulação viva entre o sexo e a palavra (Lacan, 21 de maio de 1974).
Esta é a aposta deste seminário aberto a todos os interessados.
Em Paris, nas 2as quartas-feiras do mês, às 21h15. Início: 10 de outubro.
4, place Saint-Germain-des-Prés, 75006 - Paris
Consulte www.sonecrit.com onde as sessões podem ser ouvidas
sob a rubrica “Áudio”
Estes dois textos são pontuações do seminário « Imagem da vida, vida da imagem » e da conferência de 8 de dezembro de 2007 em Saint Paul de Vence (França).
Por se tratar de conferências sem anotações escritas, elas estão em vídeos na língua em que foram faladas, o francês.
O enigma de toda imagem*
Tudo nos leva a esquecer o enigma de toda imagem, uma vez que a onipresença do visual, de forma mundana, científica, política, religiosa ou cultural, nos mantêm numa posição de guarda e não basta se revoltar para mudar o que quer que seja, já que esta é ainda uma forma de se manter nesse estar-aí para e pelo o Outro omni voyeur.
Portanto, não é evidente « ek-sistir" nesta realidade que a psicanálise da transferência revela como realidade da fantasia.
Para prosseguir, aquilo ao qual o psicanalista se atém, é que não há realidade pré-discursiva. A conferência de 8 de dezembro « O enigma de toda imagem », bem como o atual seminário « Imagem da vida, vida da imagem », é baseada nesse sentido da transferência ― só há realidade a partir do discurso ― para fazer retorno na passagem do ídolo à imagem para o grego pagão e o da lei oral à lei escrita para o judeu piedoso. Assim é a teísmo do psicanalista.
Desta forma, torna-se possível aproximar-se do encontro falhado do povo eleito com o mundo pagão, questionando-se justamente a encarnação diversamente como forma humana revelada por Deus para remissão do pecado original, mais ainda que no cristianismo que se mostra como a prova evidente desta revelação, a condensação no indiscutível dos dogmas.
Esta colocação pressupõe a aproximação do evangelho como a qualquer discurso, leigamente, ou seja, no espaço do ser falante instaurado recentemente pela linguagem a partir das referências lacanianas do Real, do Simbólico e do Imaginário e não naquelas da substância pensante e da substância estendida que constrói a história e suas histórias, sempres as mesmas.
Portanto, ao « eu ouço » do mandamento que fixa as imagens comentadas pelas palavras pode ser respondido um « eu gozo/eu ouço » enigmático do sujeito da Lei onde o gozo só poderá haver nas entrelinhas : a imagem é elevada a um quadro.
Duas questões : em que o diálogo entre Jacques Lacan e seu irmão Marc-François Lacan se autorizaria do real do gozo subentendido no evangelho para dizer « sim » ao saber em jogo da práxis analítica ? Em que gozar do saber é uma aposta do ensino de Jacques Lacan ?
Paris, 17 de fevereiro de 2008
Tradução : Leila Longo
* Escrito no só-depois da conferência de 8 de dezembro de 2007 e dos seminários em vídeo que estão em www.sonecrit.com
